segunda-feira, 18 de março de 2019

Anjo Negro




Estávamos em 2012, como o meu marido tem nacionalidade americana eu questionei-o porque não ficávamos mais tempo na América. Eu não tinha noção da razão porque o queria. Talvez para praticar o inglês. Também não sabia qual o Estado que iria escolher. Como acredito que acasos criam sincronias divinas, cortei 50 papelinhos e pedi a Deus que a escolha fosse a d’Ele, (Atos 1,24, 26; Provérbios 16: 33). Meu marido tirou um papelinho e a sorte saiu para o Estado de Delaware.

Ele disse que já conhecia Delaware e não estava muito disposto a ir para lá. Mas eu respondi-lhe:
- Se este Estado tiver uma boa universidade e eles te receberem é sinal que podemos ir para lá.

Procurei na internet e escrevemos para a universidade de Newark (https://www.udel.edu/) e  o professor  Sebastian Cioaba (https://sites.udel.edu/cioaba/) rapidamente nos respondeu e de bom ânimo aceitou o meu marido como professor visitante e também nos indicou como arranjar uma casa no campus da universidade.

Em 2013 viemos para esta casa https://inn-ternational.blogspot.com/ e é nela que temos ficado até hoje.

Nós nos apaixonamos por este lugar, repleto de animais selvagens, bandos de pássaros, muitas árvores por todos os lados, florestas, mar, rios e extensos granados. Esta é a primeira boa impressão, mas aos poucos descobrimos muito mais.

Meu marido ama NY, mas o que fez ele gostar de Newark foi por ser uma cidade idêntica à sua terra natal que é Coimbra, porque Newark é a mais importante cidade universitária do Delaware. Esta cidade está repleta de jovens enérgicos andando nas ruas de skateboard, fazendo parties e veem-se muitos esquilos, não apenas nas árvores, mas empoleirados nos fios elétricos. Newark está repleta de jovens que vêm de outros Estados e também de outros países. Os nativos mais idosos são pessoas muito simpáticas.

Mas Delaware tem muito mais caraterísticas singulares que marcam a diferença de todos os outros Estados. Aqui não se paga IVA, (ou sales tax), talvez por esta razão é impossível haver falta de empregos e não encontrei pobreza em nenhum lugar. Temos cá bastantes negros, todos sociáveis e simpáticos! Aqui me sinto na minha terra natal, pois nasci em Moçambique.


Vou contar algumas histórias que os protagonizam como “Anjos Negros”.
Tenho meditado porque razão os artistas fazem os anjos brancos de cabelos claros e com aparência de meninos.

 Eu amo ver pessoas com mistura de raças! Quando era jovem tinha uma amiga mulata de olhos azuis com o cabelo pintado de preto asa de corvo e decidi também pintar o meu cabelo com esta cor! No meu tempo de menina essa cor estava na moda.
Hoje a moda é pintar os cabelos de branco florescente até eles ficarem completamente queimados parecendo palha! Isto teve origem nos filmes de ficção onde as meninas tinham cabelos brancos. Ou será que é porque o nosso olho vê o claro com mais facilidade? O olho humano contribui para determinados julgamentos longe da realidade!
O que vou contar confirma a energia divina em anjos negros que têm aparecido no meu caminho e que fizeram muita diferença na minha vida!

Veja dois problemas que enfrentei e como por magia estes anjos negros me apareceram!
Decidimos comprar um carro e tive que lidar com um sem número de processos burocráticos. Estava difícil porque numa repartição, DMV Veículos Motorizados, uma senhora nos pedia mais e mais documentos. Passaram três semanas e continuávamos dando voltas para tratar de todos os papeis que nos pediam.
Já tínhamos comprado o carro e legalizá-lo estava difícil, estávamos a pensar que iriamos ser forçados a devolver o carro à empresa Porter.
Eu falei ao meu marido para irmos procurar uma outra repartição diferente. Talvez em outra repartição não fossem tão exigentes a pedir tantos papeis. Naquele tempo ainda não tínhamos comprado um GPS e meu marido pegou um mapa de papel e nele procurávamos a direção para um outro DMV. Mas acabamos por nos perdermos e entrei para o estacionamento de um shopping. Quando parei à minha frente estava um homem idoso e negro, saindo lentamente de uma das lojas e andava apoiando-se em muletas! Por cá existem muitas pessoas andando com muletas, a razão disso eu contarei em outra altura. Eu não sabia falar bem o inglês e pedi ao meu marido para perguntar a este senhor onde ficava o Departamento de Veículos DMV. Mas o meu marido respondeu que este senhor não saberia e que ele andando assim de muletas não tinha carro próprio para nos saber dar essa informação.
Mas eu respondi:
Com o pouco inglês que eu sei vou falar com o senhor e ele vai me entender e me ajudar! As pessoas cá são amáveis e tentam me entender, mas já aconteceu algumas se aborrecerem por eu não falar bem o Inglês.
Eu dirigi-me ao senhor negro e comecei a falar e logo fiz sinal ao meu marido para vir ao nosso encontro e me ajudar a explicar o que nós queríamos e meu marido veio falar com este senhor. Quando lhe perguntou sobre o DMV, o milagre aconteceu! O senhor disse que não poderia explicar porque estávamos longe; mas que ele ia no carro dele e nós poderíamos segui-lo pois ele nos levaria até ao lugar!
E assim nós fizemos! O senhor continuou dirigindo sua trajetória de uma maneira tão intricada que meu marido estava pensando que aquele senhor não entendeu para onde nós queríamos ir! Continuamos seguindo atrás do senhor, talvez por uns 30 minutos, devíamos ter andado atrás dele por mais de 15 milhas e finalmente chegamos ao DMV em Wilmington!
Estávamos surpresos, com o esforço daquele senhor, como ele conduzia bem mesmo com dificuldades nas pernas e admirados pela sua grande disposição para nos ajudar mesmo com problemas de saúde!  
Eu nem sabia o que fazer para lhe ficarmos gratos! Ele alegremente se despediu de nós e foi para o seu lugar. Sabe Deus o lugar da sua residência e quantos quilómetros mais aquele anjo teve que trilhar para regressar a sua casa!

Entramos no prédio da DMV e perguntamos sobre os documentos necessários e eles disseram que a única coisa que faltava era o cartão de residente do meu marido e o conseguimos adquirir rapidamente.
Mas o meu marido desejou entregar esses documentos em um outro departamento, que era muito mais próximo da nossa casa. Fomos lá e neste lugar eles continuaram nos pedindo mais e mais documentos, havia sempre documentos faltando e para este departamento andamos a caminhar para lá ao longo de 3 semanas. Desesperada já tinha dito ao meu marido:
Vamos apenas ter um carro alugado! Eu chorei dizendo que ficaria apenas aqueles dois meses e nunca mais voltarei ao Delaware! Mas comecei a pensar naquele sujeito negro que teve a gentileza de nos levar ao DMV em Wilmington. Eu senti que deveríamos levar os papeis a este departamento, embora o lugar fosse tão longe!
Chegamos ao DMV em Wilmington e mostramos os documentos para três funcionários diferentes, mas aqui eles não nos pediram mais nada e em cinco minutos, receberam um cartão de identificação de Delaware (o equivalente do português "Cartão de Cidadão"), que era o único documento que eles diziam ser preciso para finalizar a compra do carro. O processo de legalizar o carro ficou assim resolvido.
Ainda hoje continuo grata a Deus por ter-nos posto no caminho este homem e ele se oferecer a nos levar àquele departamento tão longe de nossa casa!
Foi pela amabilidade deste anjo que se abriram as portas para nós permanecermos em Delaware, pois neste lugar é praticamente impossível residirmos sem ter um carro nosso!
Tenho muitos exemplos semelhantes a estes que nos diz que é necessário nos livrarmos de preconceitos para conseguirmos vencer muitos obstáculos da nossa vida e também podermos facilitar a dos outros.
Quando escolhemos pessoas pelo que nossos olhos vêm, então estamos restringindo o nosso entendimento e a não entender muitos dos segredos ocultos no conhecimento divino.
É um fato interessante que, neste país, os negros são mais gentis e não são tão tímidos como os de Portugal.
Ao conversar com meu marido, fiquei surpresa de saber que o fim da discriminação racial nos EUA foi há aproximadamente 50 anos. Por exemplo, em 1968 foi proibida a discriminação na habitação. Existem muitas coisas que todos temos que agradecer ao Sr. Martin Luther King!


                 

                           
                                   Este é o meu querido Toyota Rava!



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